Por que o dia 7 de julho foi o mais quente da história?



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A última sexta-feira, dia 7 de julho, foi o dia mais quente da história. As temperaturas médias da superfície do mar também foram as mais altas já registradas. Por outro lado, a extensão do gelo marinho da Antártida foi a menor da história.

As maiores temperaturas do Planeta foram registradas nos últimos oito anos. Este ano, pode ser o mais quente da história. Em particular, o dia 7 de julho pode ter sido o mais quente, em um período 125 mil anos, ou seja, durante mais de um século.

Dia mais quente da história_El Niño_QGIS

Os cientistas alertaram que 2024 pode marcar o ano em que o aquecimento global excederá o temido 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Eles atribuem essas previsões, pelo menos em parte, à recente chegada do El Niño.

Mas por que tantos recordes climáticos foram quebrados, nas últimas semanas, em todo o mundo? Que outros fatores explicam essas temperaturas extremas, além do El Niño e aquecimento global? Afinal, o que de fato está acontecendo com o clima?

>> Leia também: O sistema atmosférico que pode influenciar na intensidade do El Niño

O que a poeira do Saara tem a ver com o recorde de calor desta semana?

Atlântico Norte mais quente_El Niño_QGIS

O meteorologista Humberto Barbosa, fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), explica quais são as causas do calor recorde na atmosfera e nos oceanos.

“O atual evento de El Niño acontece em um contexto de aquecimento global, no qual a temperatura média do Planeta já está em 1,2 oC. Cerca de 90% desse excesso de calor, provocado pelo aquecimento global, é absorvido pelos oceanos, que cobrem 70% do Planeta. O El Niño redistribui esse calor extra do oceano para a atmosfera”, explica Humberto.

O acúmulo de calor do aquecimento global, concentrado nos oceanos durante os últimos anos de La Niña, agora sobem para a superfície e levam aos extremos de temperatura.

Mas Humberto ressalta que não é apenas o El Niño e o aquecimento global que levaram o Planeta a recordes de temperaturas. “Essa condição de calor incomum foi combinada com uma redução nos aerossóis, pequenas partículas que podem desviar a radiação solar recebida.”

Ultimamente, os níveis de poeira do Saara sobre o oceano Atlântico estão muito mais baixos do que o normal. Correntes de vento em baixos níveis, que cruzam o deserto do Saara, têm levado as nuvens de poeira para os altos níveis da atmosfera, reduzindo a presença de aerossóis.

Aerossóis são pequenas partículas de poeira em suspensão na atmosfera, transportadas pelo vento. Como os ventos estão mais fracos este ano, têm levado menos poeira para o Atlântico Norte, aumentando o aquecimento do oceano.

A ausência de aerossóis também pode aumentar as temperaturas. Um estudo publicado em 2008, no Journal of Climate, concluiu que 35% das variações anuais na temperatura da superfície do Atlântico, no verão do Hemisfério Norte, podem ser explicadas por mudanças na poeira do Saara.

A imagem acima mostra as temperaturas mais quentes que o normal no Atlântico Norte, próximo à África Subsaariana. Esse processo de aquecimento decorre, em parte, da ausência de aerossóis naquela região.

O bombeamento de aerossóis para a estratosfera é um dos métodos potenciais da geoengenharia que a humanidade dispõe, para reduzir o aquecimento global. Todavia, parar as emissões de gases de efeito estufa é muito mais viável, a começar pela substituição dos combustíveis fósseis como fonte de energia.

>> Leia também: As tecnologias usadas pelos cientistas para monitorar o El Niño

"Não é só o El Niño, estúpido!"

corrente de jato, El Niño_QGIS

Em 1992, Bill Clinton disputava as eleições à presidência da República com George H. W. Bush (pai). Os Estados Unidos atravessavam uma recessão e foi o estrategista do primeiro, James Carville, quem apontou o real motivo da insatisfação dos estadunidenses: “It’s the economy, stupid!”.  Bush, que tinha 90% de aprovação no início daquele ano, viu seu apoio popular desaparecer drasticamente, após a invasão do Iraque, e perdeu a disputa.

Apesar de o El Niño aquecer o clima global como um todo, dependendo do movimento da corrente de jato em determinada região, seu efeito pode levar a um clima mais quente ou mais frio. O El Niño tende a aquecer o Brasil no verão, esfriando ligeiramente no inverno o Centro-Sul do País.

No entanto, um inverno mais frio do que a média no Brasil não é garantido durante um evento de El Niño. O clima de inverno no País também é afetado por outros fatores, como condições da temperatura do Atlântico, quantidade de gelo do mar Antártico e estado da estratosfera (15 a 40 km de altitude), também influenciada pelo El Niño. Portanto, em analogia, “Não é só o El Niño, estúpido!”.

Uma corrente de jato é um tipo de corrente de ar, formada no alto da atmosfera, com papel significativo na formação dos padrões climáticos globais. Alterações nas correntes de jato podem ter efeitos notáveis nas condições climáticas, em todo o mundo.

Nuvens altas e chuvas intensas no Pacífico ocidental criam ondas atmosféricas, conhecidas como ondas de Rossby. Essas ondas se estendem por milhares de quilômetros e viajam dentro das correntes de jato. Essas correntes de jato fluem para o leste, circundando as regiões de latitude média do Planeta.

À medida que o clima instável no Pacífico se move para o leste, durante um evento de El Niño, influencia na localização dos picos e baixas dessas ondas de Rossby. Esse processo leva a leves mudanças nas posições das correntes de jato.

A variação na posição dessas correntes faz com que sistemas meteorológicos, como frentes frias, se desloquem mais para o norte, durante o inverno, no Hemisfério Sul. Em anos de El Niño, a corrente de jato no Atlântico, próxima à América do Sul, tende a ficar mais intensa.

Especialistas relacionaram o padrão de escoamento em altos níveis a um bloqueio ocorrido na América do Sul, durante o El Niño de 1983. Com isso, ressaltaram o papel do Jato Subtropical nas intensas precipitações sobre o Sul do Brasil.

>> Leia também: El Niño e Planeta mais quente podem trazer seca incomum à Amazônia em 2023

O fenômeno que bombeia calor pelo Planeta

Temperatura global acima dos níveis pré-industriais_QGIS 

A temperatura média da Terra subiu 1,2 °C, em relação aos níveis pré-industriais (1850-1900). O gráfico acima compara a anomalia da temperatura média do Planeta com anomalias da temperatura média global da superfície (específico para áreas terrestres) e ainda com anomalias da temperatura média das áreas oceânicas.

As análises foram feitas a partir de intervalos de 5 anos. No gráfico, foram utilizados dados até março de 2023, obtidos do Berkeley Earth Surface Temperatures (BEST).

A tendência da temperatura média global da superfície, no período 1985-2022, destaca a influência do La Niña no resfriamento do Planeta (azul), enquanto o El Niño provoca aquecimento (vermelho). Erupções vulcânicas (triângulos laranjas) também podem ter efeito de resfriamento. 

Anos de El Niño aquecem mais o Planeta_QGIS

A imagem abaixo representa a superfície do Pacífico, até uma profundidade de 400 metros, ao longo do Equador, com destaque para o atual processo de aquecimento das suas águas. 

Temperatura profunda do Pacífico_El Niño_QGIS

>> Leia também: El Niño chegou e pode atingir intensidade sem precedentes

Os diferentes caminhos do El Niño

Aquecimento do Pacífico

O oceano Pacífico se estende por mais de 13 mil quilômetros, desde a costa da América do Sul, ao leste, até perto da Indonésia, no oeste. A temperatura da superfície do mar muda consideravelmente, ao longo da sua vasta extensão.

Em média, o oeste do Pacífico é mais de 5 °C mais quente do que a sua área leste. Isso se deve principalmente à ressurgência de água fria, perto da América do Sul, um processo no qual a água mais fria é puxada do fundo do oceano.

No entanto, em cada ciclo natural do El Niño Oscilação Sul (ENOS), esse contraste de temperatura se iguala ou aumenta. Nessa dinâmica, a força dos ventos alísios que sopram para o oeste, ao longo do Pacífico, pode aumentar ou diminuir, fazendo com que mais ou menos água fria suba e flua ao longo do Equador.

Atualmente, o Pacífico oriental está mais quente que o normal, característica da presença do El Niño. As previsões sugerem que uma parte do Pacífico equatorial, considerado indicador-chave do ENOS, tem 50% de chance de se aquecer mais de 1,5 °C, até o início de 2024.

O La Niña é a fase oposta do ciclo, caracterizada por temperaturas mais baixas da superfície do mar, no Pacífico tropical. Em junho deste ano, depois de três anos consecutivos de La Niña, o fenômeno deu lugar ao El Niño.

A região do Pacífico tropical ocidental tem algumas das temperaturas oceânicas mais quentes da Terra. O ar úmido tende a convergir nessa região, criando condições instáveis, ​​caracterizadas por ar ascendente, conhecido como convecção pelos meteorologistas. O resultado disso são nuvens altas e chuvas intensas.

A região com temperatura oceânica mais alta tende a experimentar a maior quantidade de chuvas. À medida que as temperaturas mais quentes do Pacífico mudam para o leste, durante o El Niño, o mesmo acontece com a localização da cobertura máxima de nuvens e chuvas.

Cada evento de El Niño é diferente. Alguns aquecem principalmente o leste do oceano Pacífico, como o evento de 1997-98. Outros causam maior aquecimento no Pacífico central, como em 2009-2010. Quando o aquecimento ocorre em todo o Pacífico tropical, há um evento clássico de El Niño. 

>> Leia também: Oceanos mais quentes: o que esperar para o clima brasileiro?

Extremo de calor é prévia do futuro climático breve

Temperatura sob El Niño_QGIS 

Em maio deste ano, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou haver chance de 66% de as temperaturas médias globais excederem temporariamente 1,5 ℃, acima dos níveis pré-industriais, nos próximos cinco anos.

Essa previsão refletia a possível chegada do El Niño. Assim, com a confirmação do El Niño, a possibilidade de temperaturas extremas é maior agora.

A anomalia temporária de 1,5 °C nas temperaturas globais é uma prévia do que pode acontecer no Planeta, nas próximas décadas. É fato que as atuais políticas de emissões de gases de efeito estufa estão no caminho para um aquecimento de 2,7 °C, até o final do século.

Isso não significa que estamos em um ponto sem retorno. Mas a janela de tempo para evitar um nível mais perigoso de aquecimento global diminui cada vez mais. A única maneira de evitá-lo é cortar nossa dependência de combustíveis fósseis, sendo também a mais viável atualmente, com impactos diretos na redução das emissões. 

>> Leia também: Previsão indica pico de El Niño no verão de 2024 

Calor incomum nos oceanos alerta para ritmo do aquecimento global 

Tendência de calor nos oceanos_QGIS

O mapa mostra a tendência de calor anual dos oceanos globais, para a camada entre 0-700 metros, no período de 1993 a 2020. De forma geral, houve um acúmulo incomum de calor nos oceanos (em vermelho, no mapa), embora também sejam identificadas áreas onde houve perda de calor (em azul, no mapa).

Entre 1993-2020, o conteúdo de calor aumentou em até 6 Watts por metro quadrado, em partes do oceano (laranja escuro). Como os oceanos contêm aproximadamente 80% da energia total do clima, seu calor acumulado fornece uma boa medida do que está acontecendo. O calor dos oceanos toca bem no centro da hipótese do aquecimento global antrópico: se o sistema climático estiver acumulando calor, o aquecimento global da atmosfera continuará.

Vale lembrar que no El Niño de 1997-1998, a anomalia do aquecimento do Planeta era de 0,5 °C. Hoje, está cerca de 1,2 °C acima da média pré-industrial. É importante observar que, mesmo que as emissões globais de gases de efeito estufa fossem interrompidas hoje, o clima continuaria a aquecer. Isso se deve ao calor já absorvido e retido pelos oceanos. Embora possamos diminuir o nível de aquecimento global, os efeitos das mudanças climáticas continuarão a ser sentidos no futuro.

*Post atualizado para acréscimo em: 15.07.2023, às 09h41.

COMO CITAR ESTE ARTIGO:

LETRAS AMBIENTAIS. [Título do artigo]. ISSN 2674-760X. Acessado em: [Data do acesso]. Disponível em: [Link do artigo].

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