Influência climática do La Niña pode se estender até o inverno



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O La Niña está enfraquecendo rapidamente, e já caminha para o seu fim, no oceano Pacífico tropical. Mas sua influência climática ainda deve permanecer, pelo menos até o próximo mês de junho, antes de finalmente ir embora, durante o inverno (junho a setembro).

A transição para uma fase neutra está prevista para o inverno, com probabilidade de surgir um El Niño, no final de 2022.

Na última quinta-feira, dia 10 de fevereiro, a Agência Americana de Meteorologia e Oceanografia (NOAA) divulgou nota sobre a atual situação do La Niña. O resultado indica que há 77% de chance de o fenômeno permanecer no Pacífico, no trimestre que vai de março a maio.

Antes de analisar o atual cenário do La Niña e a previsão para o clima nas regiões brasileiras, vamos explicar como funciona a dinâmica desse fenômeno.

Crescem áreas aquecidas abaixo da superfície do Pacífico

Extensão do La Niña no final de 2021. Elaboração: Lapis.

Extensão do La Niña no final de 2021. Elaboração: Lapis.

A imagem acima destaca a temperatura das águas do Pacífico tropical, em dezembro de 2021, com destaque para o pico do La Niña. Recentemente, já se observa uma diminuição da área de resfriamento, na região do El Niño Oscilação Sul (ENSO), como mostra o mapa abaixo. 

Redução do La Niña no final de 2021. Elaboração: Lapis.

Redução da área de La Niña, em fevereiro de 2022. Elaboração: Lapis.

O ENSO é um grande sistema, que conecta o oceano e a atmosfera, na região do oceano Pacífico equatorial. O sistema alterna entre as fases quente (El Niño) e fria (La Niña).

Essas anomalias oceânicas (quando as águas estão mais quentes ou mais frias que o normal), podem mudar o clima sazonal, em todo o mundo. A mudança de fase do ENSO costuma durar de 1 a 3 anos.

Atualmente, estamos sob a influência de um La Niña de segundo ano, com pico de resfriamento normalmente mais fraco do que o evento de La Niña anterior.

Mas o resfriamento atual tem sido bastante substancial e persistente, desde meados de novembro de 2021, atingindo um pico no início de janeiro, antes de voltar a aquecer.

Os ventos alísios também exercem um papel decisivo na formação do La Niña. Uma mudança nos ventos alísios tropicais, em janeiro deste ano, encerrou o processo de resfriamento, iniciando o progressivo colapso do La Niña.

Quando estão mais fortes, esses ventos “empurram” as águas quentes da superfície do Pacífico equatorial, em direção ao oeste, dando lugar às águas mais frias, que estavam submersas.

No início de janeiro, quando esses ventos alísios enfraqueceram, na região do ENSO, as águas mais frias do Pacífico tropical diminuíram rapidamente.

Com isso, a área com águas mais frias que o normal, do oceano Pacífico em profundidade, tornou-se cada vez menor, levando ao enfraquecimento do La Niña.

Agora, já se observa uma onda quente em expansão, abaixo da superfície do Pacífico, indicando o iminente fim do La Niña. A tendência é que essas águas mais quentes comecem a emergir na superfície.

Todavia, apesar da chance de o La Niña acabar mais cedo (nos próximos três meses), especialistas apostam que o fenômeno ainda pode persistir.

>> Leia também: A influência da ZCAS na formação de tempestades severas no Brasil

La Niña pode persistir até o inverno brasileiro

O Centro de Previsão Climática da NOAA ainda mantém a permanência do La Niña, bem como sua influência no clima, nos próximos meses. De acordo com a Agência americana, o La Niña deve continuar até maio deste ano. Depois, haverá uma transição para a fase de ENSO neutro, durante maio-julho.

Mas diante das incertezas nas previsões, foi indicada uma chance de somente 56% de ocorrer a condição de neutralidade (sem La Niña e sem El Niño), no período de junho a agosto. A questão de consenso mesmo é o fim da fase fria (La Niña).

Alguns meteorologistas chamam atenção que o declínio do La Niña será mais lento, nos próximos meses. A previsão do CFSv2, dos Estados Unidos, destaca que o resfriamento atual deve se estender, em 2022.

Com um fim mais lento, as anomalias frias no Pacífico devem permanecer até o inverno, indicando que este seria um evento de La Niña de 3 anos.

Vale lembrar que o evento de La Niña, iniciado no final de 2020, faz parte de um padrão climático de longo prazo, que caracterizou as últimas duas décadas: a fase fria da Oscilação Decadal do Pacífico (ODP).

Durante a maior parte das décadas de 1980 e 1990, o Pacífico enfrentou a fase quente da ODP, que provocou vários eventos fortes de El Niño. Mas agora, há uma tendência para uma fase mais fria dessa Oscilação. 

O La Niña ainda tem uma forte presença na atmosfera. Mas mesmo estendendo sua influência em 2022, há previsão de um retorno à fase neutra, com chance maior de um El Niño, no final de 2022.

>> Leia também: Uma mudança no padrão de chuvas no Brasil vista a partir de mapas

Previsão climática para as regiões brasileiras

Mapa SIG do número de dias sem chuva. Fonte: Lapis.

Mapa SIG do número de dias sem chuva. Elaborado no software QGIS

Diante desse cenário, o meteorologista Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), alerta ser possível que o La Niña continue influenciando no inverno brasileiro (junho a setembro).

"Isso aumenta a pressão sobre as áreas agrícolas, do Centro-Sul brasileiro, pois indica a continuidade da seca, principalmente no Sul do País", completa Humberto. 

Nessa análise, o atual padrão climático será mantido. Ou seja, sob os impactos do La Niña, a estiagem deve continuar, desde o Mato Grosso do Sul até a região Sul. Por outro lado, da área central ao norte do Brasil, o cenário é favorável para as chuvas, a partir de março.

Com isso, as áreas de produção agrícola da região Sul vão continuar não apenas com irregularidades nas chuvas, mas também com risco de antecipação das ondas de frio. Ou seja, há chance de a geada chegar mais cedo, afetando a produção de grãos, principalmente o milho safrinha.

O avanço do La Niña, em 2022, provavelmente significa más notícias para o sudoeste dos Estados Unidos, onde devem ser registradas chuvas abaixo do normal, no atual inverno americano. Naquela região, a seca de longo prazo coincide com essa tendência.

>> Leia também: Mapeamento compara atual biomassa de áreas agrícolas do Brasil

Mapa da umidade do solo destaca áreas atualmente mais secas no Brasil

Mapa SIG da umidade do solo. Fonte: Lapis.

Mapa SIG da umidade do solo. Elaborado no software QGIS

O mapa da umidade do solo, baseado em dados de satélites, é um dos principais indicadores para avaliar a condição de seca, de determinada região. Neste post, vamos analisar a atual intensidade da seca, em todo o Brasil, a partir da imagem de satélite da umidade do solo.

De acordo com o mapa SIG atualizado, as áreas mais secas do Brasil estão concentradas na região do Matopiba, principalmente na região central e sul do Piauí, no sul do Maranhão, além do oeste de Pernambuco e áreas pontuais do Tocantins.

O Centro-Sul do Brasil também continua a enfrentar estiagem, principalmente o Mato Grosso do Sul e os estados do Sul do Brasil. O oeste do Rio Grande do Sul é a área do País que enfrenta seca mais intensa atualmente.

Como vimos ao longo deste post, de acordo com a mais recente atualização sobre o La Niña, feita pelo Laboratório Lapis, o padrão climático de seca no Sul do Brasil deve continuar, pelo menos no período de março a maio.

Isso ocorre porque, embora o La Niña esteja mais fraco, terá um declínio mais lento. Assim, sua influência climática deverá persistir, durante o inverno no Brasil.

>> Leia também: Radiografia da seca no Brasil a partir de mapas

Mais informações

Os mapas da umidade do solo e da precipitação, utilizados neste post, foram processados pelo Laboratório Lapis, no software QGIS. Para saber mais sobre como elaborar os mapas desses indicadores, conheça o método de geoprocessamento do Laboratório. 

COMO CITAR ESTE ARTIGO:

LETRAS AMBIENTAIS. [Título do artigo]. ISSN 2674-760X. Acessado em: [Data do acesso]. Disponível em: [Link do artigo].

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