Desertificação no Semiárido é manchete de capa do The New York Times


Imagens de satélite da grande seca 2010-2017, no Semiárido brasileiro. Fonte: Livro "Um século de secas".


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A política ambiental brasileira continua chamando atenção do mundo. Nesta sexta-feira, dia 03 de dezembro, o prestigiado jornal The New York Times destacou em sua manchete de capa uma reportagem especial sobre o processo de desertificação no Semiárido brasileiro.

O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), que realiza o monitoramento por satélite da Caatinga, inclusive com o mapeamento dos níveis de degradação da terra e da intensidade da seca, forneceu os dados usados na reportagem.

Com o título "Desastre climático em câmera lenta: a expansão de uma terra árida", a matéria mostra como as mudanças climáticas têm contribuído para agravar o cenário ambiental do Semiárido brasileiro.

Com reportagem do jornalista Jack Nicas, fotografia e vídeo de Victor Moriyama, a matéria expõe, de forma contundente, a situação da população de áreas rurais do Semiárido, frente às secas e à desertificação.

Em contraste, durante as secas, empresários da indústria cerâmica lucram a custo da degradação da Caatinga. Foram visitados os municípios de Parelhas e Carnaúba dos Dantas, no Seridó potiguar.

Na reportagem, imagens e um vídeo com cenas impactantes, obtidas a partir de drone, mostram a desertificação e degradação ambiental nos municípios de Carnaúba dos Dantas e Parelhas, na região de Seridó, no Rio Grande do Norte.

O Seridó é onde se localiza um dos Núcleos de desertificação do Semiárido brasileiro, que também abrange a microrregião de mesmo nome, na Paraíba.

O Seridó potiguar é um dos principais polos produtores de telhas do País, uma atividade produtiva de grande impacto ambiental para a Caatinga.

A cada dia, as fornalhas que alimentam a queima do produto, usando grande volume de lenha extraída da Caatinga, além do uso de água e argila, esgotam os recursos naturais da área.

Na reportagem especial, o fundador do Laboratório Lapis, professor Humberto Barbosa, destacou o processo gradual e crescente da desertificação no Nordeste brasileiro.

Dentre as principais causas da desertificação estão: o desmatamento, o sobrepastoreio, atividades extrativistas, como é o caso da indústria cerâmica, aumento da gravidade das secas, entre outras formas de uso da terra que comprometem a integridade dos solos.

Os solos do Semiárido brasileiro são jovens e ainda rasos. Cada centímetro de solo leva pelo menos três centenas de anos para se formar. Porém, com o desmatamento, esse solo fica exposto. A remoção da terra, de forma natural ou pela ação humana, causa a erosão, os grandes sulcos abertos no solo, que são a porta para o processo de desertificação.

Além do monitoramento da desertificação, o Lapis divulga semanalmente o mapa SIG da estimativa da umidade do solo, para todo o Brasil. A ferramenta é essencial para apoiar na tomada de decisão informada, para diversos setores, como agricultura, produção de energia, entre outros. 

A mudança climática piora o processo, pois com o aumento das temperaturas e da frequência das secas, os recursos naturais são levados ao seu limite. É o caso da remoção da cobertura da terra de áreas de vegetação da Caatinga, das diferentes camadas de solo, da extração de água subterrânea, da exploração intensiva para agropecuária.

As consequências da desertificação são migração, pobreza, insegurança alimentar, por afetar a produção de alimentos, entre outros.

Humberto Barbosa relatou, na reportagem, que a região teve a maior seca já registrada na história (2012 a 2017) e, neste ano de 2021, outra seca afetou quase todo o Brasil, inclusive o Nordeste.

O assunto foi aprofundado no Livro “Um século de secas”, do qual ele é coautor, com uso de séries temporais de dados de satélites e documentos sobre políticas públicas, durante mais de 100 anos.

A imagem abaixo também faz parte do monitoramento da seca no Brasil, feito pelo Laboratório Lapis. A partir de dados CHIRPS, obtidos por satélites, o mapa SIG é processado no QGIS, com um panorama atualizado da atual seca no Brasil. 

Em agosto de 2021, o último grande relatório das Nações Unidas sobre mudança climática mostrou que o Nordeste do Brasil enfrenta o aumento das temperaturas, um declínio acentuado nas águas subterrâneas, além de secas mais frequentes e intensas.

Imagens de satélite, processadas pelo Lapis e validadas em campo, mostram que 13% das terras já perderam sua fertilidade, enquanto toda a região está em risco, por ser uma área suscetível ao processo de desertificação.

O mapa abaixo foi processado pelo Lapis, com uso de dados do satélite Meteosat-11 e do software QGIS. A imagem classifica os níveis de degradação do solo no Semiárido brasileiro.

O Laboratório elaborou uma metodologia para mapear a desertificação no Semiárido. As áreas com degradação da terra, de forma grave ou muito grave, são consideradas desertificadas. No total, cerca de 13% da região Semiárido já está com os solos comprometidos. 

Mapa da desertificação no Semiárido. Fonte: Lapis.

Desertificação no Semiárido. Fonte: Lapis.

“Está chegando a um ponto de inflexão”, disse Humberto Barbosa, um dos maiores especialistas em desertificação que estuda o Nordeste brasileiro, há muitos anos. “Um ponto sem volta.”

A reportagem ainda destaca a ausência de políticas significativas para evitar que a região se transforme em um deserto, comparando com a situação da Amazônia. Os dois biomas têm em comum a degradação ambiental causada pelo desmatamento, com consequências graves para a população vulnerável, que vive nessas áreas.

O professor Humberto ressaltou os tipos de vulnerabilidades presentes na região do Semiárido brasileiro: climática, à desertificação, ecológica, socioeconômica, institucional e do conhecimento. Esses temas são aprofundados no Livro “Um século de secas”.

Mais informações 

O Laboratório Lapis oferece um treinamento para processar e analisar imagens, produzir mapas e geointeligência, no QGIS. O Curso é online e está com inscrições abertas neste link

COMO CITAR ESTE ARTIGO:

LETRAS AMBIENTAIS. [Título do artigo]. ISSN 2674-760X. Acessado em: [Data do acesso]. Disponível em: [Link do artigo].

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