Forte frio no Centro-Sul não chegará a condição extrema



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Muitos estão preocupados com a onda de frio, no Centro-Sul brasileiro, nos próximos dias. De fato, as temperaturas devem despencar, mas não haverá condição extrema.

Neste post, vamos explicar o que deve acontecer, de acordo com a análise da previsão do tempo, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis). 

Uma nova frente fria vai passar pelo Sul brasileiro, nesta segunda-feira, dia 26 de julho. Devido a isso, há previsão do retorno da chuva, até a quarta-feira desta semana, sobre a região Sul e também em parte do Sudeste.

Mas a chuva ainda será irregular, na sequência da massa de ar polar, levando à queda brusca nas temperaturas.

De acordo com o meteorologista Humberto Barbosa, fundador do Lapis, há possibilidade de que esse frio traga geada novamente, nas áreas de cana-de-açúcar e café, não só do Paraná, mas principalmente de São Paulo e Minas Gerais.

Nos próximos dias, apesar da queda acentuada nas temperaturas, no Sul e no Sudeste do Brasil, não há previsão de que haverá condição extrema de frio, sobre a região. 

E um dos motivos do enfraquecimento dessa massa de ar polar são os ventos fortes e de altitude, que devem empurrar o ar frio, em direção ao oceano.

Segundo Humberto Barbosa, o frio mais intenso vai ocorrer nos dias 28 e 29 de julho. No próximo fim de semana, as temperaturas começam a subir, gradativamente. Desse modo, ainda continuará frio, mas sem risco de geada.

Todavia, nesse inverno, massas de ar polar devem avançar com mais frequência, sobre o Brasil, o que aumenta a possibilidade de novos eventos de geada, ao longo de toda a estação.

Entenda as causas da onda de frio no Centro-Sul

A onda de frio, dos últimos dias, que atingiu grande parte do Centro-Sul brasileiro, foi forte. Tanto é que houve formação de geada, até mesmo em municípios onde esse fenômeno não é comum. 

As temperaturas nas regiões produtoras de café, do Brasil, caíram abaixo de 0 °C, durante horas, na última terça-feira, dia 20 de julho, danificando as lavouras de feijão e os laranjais. A neve registrada na Serra Gaúcha e Serra Catarinense esteve relacionada com a injeção de ar polar, através de uma frente fria.

Vamos entender como funciona essa corrente de jato.

O Hemisfério Norte e o Hemisfério contam, cada um, com um jato polar e um jato subtropical. O jato polar do Hemisfério Norte flui sobre as latitudes médias e setentrionais, da América do Norte, Europa e Ásia e seus oceanos intermediários. Já o jato polar do Hemisfério Sul circunda a Antártida, durante todo o ano.

O jato forma uma linha divisória, relativamente nítida, entre as massas de ar tropical quente e polar frio. A corrente de jato existe, em grande parte, devido a uma diferença de calor, que no Hemisfério Sul significa ar frio, no lado sul da corrente de jato, e ar quente, no norte.

Resumindo, as correntes de jato se formam quando as massas de ar quente encontram as massas de ar frio, na atmosfera. Quando isso acontece, o ar mais quente sobe mais alto, na atmosfera, enquanto o ar mais frio desce, para substituir o ar quente. 

Essa dinâmica cria uma corrente de ar ou vento. Uma corrente de jato é um tipo de corrente de ar, que se forma no alto da atmosfera. 

As estações do ano também afetam a posição do jato: no inverno, o jato polar e o jato subtropical se deslocam para norte (no caso do Hemisfério Sul).

Essa variação, na posição das correntes de jato, faz com que sistemas meteorológicos, como frentes frias, se desloquem mais para o norte, durante o inverno (ainda se referindo ao Hemisfério Sul).

É comum que a corrente de jato afete as condições de tempo. Por exemplo, uma corrente de jato mais fraca pode fazer com que uma tempestade fique “presa”, por mais tempo, em determinada região.

No inverno do Hemisfério Sul, quando uma corrente de jato polar se configura, em formato de ômega, projetando-se sobre o extremo sul, da América do Sul, o ar seco do Centro-Sul do Brasil pode ser empurrado para o norte, elevando as temperaturas acima do normal.

Os meteorologistas se preocupam sempre quando ocorre essa curva de ômega. Nessas situações, o ar quente viaja mais ao norte, enquanto o ar frio, penetra mais ao sul. 

O resultado disso é uma sucessão de sistemas excepcionalmente quentes e frios, na mesma latitude. Sob essas condições, os ventos geralmente enfraquecem, e o clima perigoso pode permanecer preso, no mesmo lugar, por dias ou semanas consecutivas – ao invés de ficar apenas algumas horas ou um dia –, levando a chuvas prolongadas e ondas de calor.

[Atualização] Frio desta semana deve ter pouco impacto nas lavouras 

Esta semana, não deve ocorrer geada nas regiões produtoras de café e de cana-de-açúcar do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. É o que chama atenção, em primeira mão, uma atualização do meteorologista Humberto Barbosa.

Mesmo que alguma geada venha a ocorrer, será apenas em pontos isolados, como algumas localidades de maior altitude. E caso a geada se repita, será com intensidade fraca, se comparada com a geada que ocorreu no último dia 20 de julho.

Segundo Humberto, o fato é que o frio que ocorrerá no Sul e no Sudeste do Brasil, nos próximos dias, não deverá ter a intensidade inicialmente prevista. As temperaturas vão ser baixas, mas não o suficiente para causar danos às lavouras.

Um dos motivos desse enfraquecimento da massa de ar polar são ventos de intensidade forte e de altitude, que empurram a massa de ar polar. De ontem prá cá, em razão desses ventos, o jato polar, em forma de ômega, perdeu força, e agora desloca-se para o oceano.

O frio mais intenso será nos dias 28 e 29 de julho, principalmente na madrugada da quinta-feira, quando parte da borda do jato passa pelo extremo sul do Brasil.

No fim de semana, as temperaturas começam a se elevar gradativamente. Embora ainda continue frio, não haverá risco de geada.

O que leva a situações extremas de frio?

Humberto Barbosa, do Laboratório Lapis, pesquisa fenômenos atmosféricos extremos, e explica o que leva a situações de preocupação, nas condições de tempo.

Segundo ele, o termo meteorológico “ciclogênese explosiva” ocorre quando um sistema de baixa pressão está sujeito a uma intensificação repentina e explosiva, normalmente após uma injeção de ar frio e seco, da estratosfera. Mas não é comum que isso ocorra, pois a estratosfera fica acima de uma altitude de 10 a 15 quilômetros, e o ar lá em cima tende a permanecer lá.

Mas como exemplo, um evento de “aquecimento estratosférico repentino”, ocorreu em julho de 2020. Nessas situações, a perturbação na estratosfera é transmitida para baixo, através da atmosfera. Pode levar várias semanas para que o impacto do aquecimento estratosférico chegue à superfície, ou apenas alguns dias.

Em julho de 2020, um ciclone-bomba atingiu o estado de Santa Catarina. Vários fatores, incluindo um evento de La Niña, contribuíram para um forte vórtice. Vórtices fortes são difíceis de mudar, o que significa que um evento de aquecimento estratosférico repentino, naquela ocasião, não parecia particularmente provável. 

Monitoramento de jatos a partir de dados de satélites

O monitoramento de jatos ajuda a identificar para onde os sistemas meteorológicos poderão se mover. Mas as correntes de jato ainda são um pouco imprevisíveis. Seus caminhos podem mudar, levando tempestades a direções inesperadas.

A imagem de satélite acima foi obtida pela combinação de 4 canais, na banda do infravermelho, do satélite GOES-East Air Mass. É utilizada, por exemplo, na discriminação de massas de ar (ar tropical quente, com baixa concentração de ozônio, surge em tons de verde; ar polar, frio e com elevada concentração em ozônio, surge em tons de azul).

Além disso, nuvens espessas, com topos em níveis elevados da atmosfera, aparecem em branco, enquanto zonas de intrusão de ar estratosférico, surgem em tons avermelhados. 

Os satélites meteorológicos, como o Meteosat-11 e o GOES-16, utilizam radiação infravermelha, para detectar o vapor de água, na atmosfera. Com essa tecnologia, os meteorologistas podem detectar a localização das correntes de jato.

Satélites como o Meteosat-11 fornecem relatórios atualizados, sobre onde esses jatos estão na atmosfera, e a provável direção dos sistemas meteorológicos.

No vídeo acima, baseado em imagens do satélite GOES-16, a área verde corresponde ao ar tropical, quente e úmido, enquanto as áreas em laranja e vermelho, ao ar polar frio e seco. 

A faixa móvel de ar, entre os dois, é o jato polar. As correntes de jato são faixas estreitas de vento forte, que geralmente sopram de oeste para leste, em todo o Planeta. 

Para concluir, Humberto Barbosa analisa o contexto da mudança climática e de perturbações nas condições de tempo, que têm ocorrido no Hemisfério Norte.

Em relação à onda de frio desta semana, no Brasil, ele afirma que, por mais severo que possa parecer, os registros mostram que eventos semelhantes, em décadas anteriores, foram ainda mais frios, do que agora. 

“Embora a corrente de jato esteja fazendo o mesmo de sempre, os gases de efeito estufa, que aquecem o Planeta, fazem com que as invasões do ar polar, atualmente, sejam um pouco mais suaves”, assegura Humberto. 

O meteorologista ainda explica quais são os três fatores que têm causado mais frio. São eles:

1) Mudança climática: o aumento das temperaturas globais tem tornado as ondas de frio mais extremas;

2) Temperaturas do Atlântico Sul: influenciam na posição da corrente de jato, que impactam o clima no Sul brasileiro;

3) La Niña: massas de ar polar avançam com maior frequência sobre o Brasil, nesse inverno. Isso aumenta a possibilidade de geada, associada a invernos frios, no Centro-Sul brasileiro.  

*Atualizada em: 28.07.2021, às 14h05.

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